23 janeiro 2014

Relato de Brevet 300k de Lúcio Lima

   Conforme já foi divulgado aqui no blog, os ciclistas Rodrigo Costa Oliveira e Lucio Lima participaram do evento do Teutônia Ciclismo, no último final de semana, encarando a prova de 300 km's, conseguindo completá-la com êxito.



   Segue nesta postagem o relato enviado por Lício Lima.

AUDAX  TEUTÔNIA 300 km – 18 E 19/01/14

                Completar esta prova não foi difícil, foi “dificílimo”.
                A preparação não foi como eu gostaria, juntou o final de ano em que só dei uma pedalada de 80 km em Curitiba e mais viagens e tempo ruim aqui em Bagé impossibilitaram uma preparação. Eu havia feito um audax 200 em Vera Cruz em novembro, acho que não deu pra esquecer como se anda de bicicleta.
                Fui para a prova com o Rodrigo Oliveira, companheiro das pedaladas aqui de Bagé que fez a prova com a sua POSSANTE GT aro 29. Saímos daqui  sábado cedo, passamos em  Santa Cruz e chegamos em Teotônia na hora do almoço. Almoçamos junto com o Udo e mais dois “doidos” da região de Santa Cruz que também estavam a caminho da prova, saíram de lá às 08h00min de bike, o Udo com a sua famosa Barraforte, estavam fazendo uma pedalada de 90km para chegar na prova já aquecidos, como sempre.
                A prova iniciou às 16:00 hs, e como combinado fomos escoltados até os bonecos do Teu e da Tônia, daí pra frente era cada um por si, e muitos obstáculos a vencer, pra começar uma “pequena” subida de 7 quilometros com desnível de 350metros, um ótimo aperitivo pra quem estava  disposto a pedalar 300 km pelas serras da região, aliás 310 km.
                Como eu já esperava, o Rodrigo se mandou, pedalou muito nos últimos tempos e estava afiado para a prova.
                Depois destes 7 quilômetros teve a “Vingança da Linha Berlim”, desci os 4 quilômetros daquela que me tomou uma hora nos 200 km de Teutônia em menos de 5 minutos, cheguei a pegar 73 km/h na descida.
                Quando cheguei no PC1, encontrei o Rodrigo saindo, ainda com a “Faca nos dentes”, doido pra fazer um bom tempo na prova.
                No caminho para Estrela e Lajeado, passando por Colinas, começou a me dar aquela vontade louca de parar, comecei a pensar nas subidas que estavam por vir e pensei muitas vezes em procurar um hotel por ali e esperar o Rodrigo na manhã seguinte para voltarmos pra Bagé, foi uma discussão grande “de mim comigo mesmo”, nessa hora você começa a pensar o que esta fazendo ali com todos aqueles “doidos” por bicicleta, não sei o que nos move. A pequena garôa que caiu entre Colinas e Estrela foi uma benção, o sol estava judiando e aquela sombrinha veio na hora certa.
                Fui em frente, comi melancia até ficar com a barriga doendo na Tenda da Alemõa, já no km 82 e até que subi bem a subida que havia logo à frente, o desnível era grande e tinha cerca de 7 quilometros. Encontrei o pessoal de Pelotas empurrando a bike a certa altura e fui solidário a eles, desci da bicicleta e caminhei junto por cerca de 2 quilometros, já era noite e a companhia desses Gauderios foi muito legal, bom papo e novos amigos. Quando eles resolveram pedalar mais um pouco, na subida, quando dei as primeiras pedalas veio o primeiro susto, começou a me dar cãibras na coxa direita, fiquei apavorado, pois ainda faltavam muitos quilometros para completar a prova e pensei que teria problemas, desci da bike, caminhei mais um pouco dando uma esticada nas pernas e logo depois subi e continuei, felizmente não tive mais problemas desta natureza durante a prova.
                Desde a Tenda da Alemõa até o local da Janta foi relativamente tranquilo, mesmo subindo um desnível de cerca de 600 metros. Foram cerca de 37 quilometros, chegando ao km 119 da prova.
                A janta foi servida em um tipo de Salão de Baile da comunidade, todo mundo entrava com as bicicletas dentro do salão, a largava em um canto qualquer ou no chão, arrumava uma mesa e saboreava aquele macarrão não muito quente com galeto e salada, estava muito bom, como é boa uma comida salgada nesta hora. Para minha surpresa, quando olhei lá no meio do salão, no meio de tantas bicicletas, vi o Rodrigo Oliveira, meu companheiro, mexendo no bagageiro, cometeu o mesmo erro que eu nos 200 de Teutônia, levou um bagageiro pesado e uma mala cheia de coisas, sem necessidade. Imediatamente dei um grito e depois outro e foi quando ele me viu, parecia uma criancinha que perdeu o pai no meio da multidão, seus olhos brilharam e ele veio correndo falar comigo. Disse que estava com as pernas doendo, cansado e com a cabeça confusa e que dali pra frente iria fazer a prova em minha companhia, acontecesse o que acontecesse, completar a prova com um bom tempo já não era mais prioridade para ele. Não conseguiu se adaptar a nenhum grupo de ciclistas e estava se sentido muito só na prova. Daí pra frente fomos parceiros até o fim, fizemos uma pedalada memorável e com certeza a responsabilidade que eu tinha de levar mais aquele Gaucho até o final da prova me deu força extra para continuar e concluir a prova.
                Depois disso foram muitas e muitas subidas, intermináveis subidas, contínuas subidas, parecia até que não tinha descidas, a gente descia o trecho em declive em poucos minutos e sofria horrores nos trechos em aclive, foram muitas subidas mesmo, pedalamos cerca de 120 quilometros em cima de uma serra “braba”, impiedosa e apesar de estar escuro a gente via nas descidas as luzes dos outros ciclistas que estavam na frente lá em cima e era o prenuncio que mais uma subida daquelas viria pela frente e foi quando comecei a fazer contas. Calculei que para completarmos a prova teríamos que chegar no PC5 antes das 8 da manhã para sairmos de lá até às 8, teríamos então, 4 horas para completar os últimos 60 quilometros o que dá uma media de 15 por hora. Esta media é abaixo do que estamos acostumados mas, levando em conta o desgaste físico de uma noite toda pedalando, e ainda parte do dia anterior debaixo de um sol escaldante achei que seria prudente uma folga. Do PC4 ao PC5 eram 57 quilometros, contando com as duas descidas longas (uma hora tem que descer). Eu computava cerca de duas horas e meia para este trecho, então, teríamos que sair de Arvorezinha no máximo às quatro e meia, para termos um tempo para tomar um bom café no Hotel Hengu, onde seria o PC5. Falei com o Bruno que lá estava sobre o trecho seguinte e ele disse que eram mais umas poucas subidas até a “ladeira” que descia, o dono da lanchonete que tinha no posto chegou a mencionar 3 ou 4 subidas, eu parei de contar no 15, creio que foi o pior trecho da prova, o Rodrigo reclamava de cada subida, “oh não, mais uma”, e continuávamos firmes eu sempre puxando o nosso pelotão de 2, acho que ele tinha medo de ir na frente e eu ficar muito pra traz.....hahahaha. Brincadeira à parte, vencemos aquelas mais de 15 subidas e chegamos ao primeiro refresco, uma descida de uns 5 quilometros mas com asfalto muito ruim em alguns trechos, foi um trecho muito perigoso pois ainda estava noite. Depois desta primeira descida ainda tivemos mais algumas ou várias subidas, nem me lembro mais e pegamos o segundo e ultimo refresco, uma descida de aproximadamente 7 quilometros com asfalto perfeito, desci feito um louco, sem pedalar, a uma velocidade entre 50 e 60 km/h, pena que durou pouco.
                Chegamos no PC5 às 7:15hs, nesta hora tive a certeza de que completaríamos a prova, o trecho seria plano, lógico que com algumas subidas mas nem se compara com o trecho da serra. Tomamos muito suco, comemos frutas  e fomos em frente, faltavam cerca de 60 ou 65 quilometros para serem vencidos em cerca de 4 horas e vinte, saímos do hotel eram 7:40 horas.
                O café da manhã nos deu um novo animo, pedalamos um bom trecho numa media de 20 por hora e estávamos ganhando tempo para algum imprevisto, o que acabou acontecendo. Assim que entramos na rota do sol, eu estava na pista por causa de algumas pedras e o Rodrigo me gritou que vinha vindo um carro, acabou se distraindo, subiu o degrau que tinha no asfalto e furou o pneu, nada muito grave, foi só a camara de ar, que foi rapidamente substituída e seguimos em frente. Depois disso, já muito cansados, veio o trecho da rota do sol, o pequeno trecho da Via Láctea, já em Teutônia e os intermináveis 7 quilometros da Linha Capivara, pra mim foram mais de 20, estava muito cansado mesmo e o Rodrigo foi na frente, sempre me cuidando, queria que chegássemos juntos no final, e foi o que aconteceu, depois de 19h13min e 309,71 km chegamos no tão sonhado “CAMPO DE FUTEBOL DA LINHA CAPIVARA”.
                A festa foi boa, um excelente churrasco feito pelo pessoal local e a tradicional confraternização entre os ciclistas, cada um querendo contar as suas historias. A maior parte a gente conhece só de vista mas sabe que aquele “maluco” vai estar presente na próxima, com certeza.
                Agradeço muito a todos os organizadores da prova e principalmente ao Bruno e Suzana, que a cada passagem nos incentivava e dava forças extras para que pudéssemos completar a prova e também ao meu Companheiro Rodrigo, grande amigo e parceiro. Agradeço também aos amigos de Bagé, Pedro e Heron e também os outros parceiros das pedaladas pela força que nos deram para encarar este desafio e de nos confiarem a honra de representar o Clube Audax Bagé nesta prova.

Abraços

Lúcio Pereira Lima
Bagé, 20/01/2014